Saúde, Paz, Harmonia...

Prefiro as Convicções mutantes
Às incertezas constantes

Palavras que o vento não leva...

Clarice Lispector. "... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, espararei quanto tempo for preciso."
Confúcio: "O que eu ouço, eu esqueço. O que eu vejo, eu lembro. O que eu faço, eu entendo."
Madre Tereza de Caucutá: "É inadmissível nos permitirmos que alguém saia da nossa presença sem se sentir melhor e mais feliz."
Paulo Freire: "A subjetividade muda no processo de mudança da objetividade. Eu me transformo ao transformar. Eu sou feito pela história ao fazê-la."
Sartre: "o importante não é o que fizeram de mim, mas o que eu faço do que fizeram de mim."
[autor]: "Palavras categóricas e ásperas são sinal de uma causa infundada."
Madre Tereza de Caucutá: "Não ame por beleza, pois um dia ela acaba, não ame por adimiração, pois um dia pode se decepcionar. Ame apenas, pois o tempo nunca poderá apagar um amor sem explicação."
Diamante: "A pessoa que briga por uma única verdade, na realidade está defendendo sua mentira!"
Voltaire: "Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las."
Oscar Wilde: "Se você não consegue entender o meu silêncio de nada irá adiantar as palavras, pois é no silêncio das minhas palavras que estão todos os meus maiores sentimentos."

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domingo, 10 de julho de 2011

Sem pertencimento ou Sentença

Fechou a porta de casa. Mas não foi ela que a abriu. "vai deitar, vai. Tá frio aqui fora...". Uma frase curta. Os olhos claramente tristes, pensativos. Ela muda. O som do elevador anunciou sua chegava. Nenhuma pertença. Nenhuma sentença.

Tudo ocorreu em casa. Tudo regado a momentos de intensidade e entrega... E depois, não as luzes e o estardalhaço da mutidão enlouquecida pela escolha da playlist do DJ, mas sim o cansaço que levou ambos a um sono entremeado de beijos, afagos, cuidados, abraços - que apesar de simbólicos, genuínos e cheios de ternura, não traduziam, em essência, qualquer estágio de relacionamento. Nenhuma pertença. Nenhuma sentença.

Lembrou que o presente não fora dado, apesar de comprado com a intenção de demonstrar o afeto que surgia. Ela optou por não se expor. "Você é incrível, merece pessoa melhor que eu". Por não dar contretude à subjetividade da partida. E porque, também, não havia nada a requerer. Nenhuma pertença. Nenhuma sentença.

Sem motivos razoáveis para entristecer-se, ela entristeceu. "Não foi isso que eu disse. Você não percebeu que gosto de ficar com você?". O jogo era a dois e em seu momento de isolamento poderia ser dar ao luxo de demonstrar a si mesma o quanto havia se envolvido. Mas ainda assim era um jogo. E tavez por isso - por ser um jogo - ele não tenha esquecido de levar o objeto entregue na noite anterior como motivo para estar com ela. "É pra eu pegar com você amanhã"... E mesmo que não tenha tomado espaço. E mesmo que nãou houvesse sentido. Um espaço fora tomado, mas não pelo objeto. Nenhuma pertença. Menhuma sentença.

O som surdo do outro lado denunciou sua partida. Abriu a janela e o viu caminhar no sentido oposto ao de seus corações. "Vivo em busca do novo", lembrou das palavras ditas há algumas semanas. Permaneceu na janela observando o distanciamento. Todos os distanciamentos. Um caminhar lento, a silhueta da figura que, cada vez mais diminuta, talvez não mais retornasse. Nenhuma pertença. Nenhuma sentença.

Fechou a janela assim que o coletivo não deixou mais dúvida de que ele se fora. O sol nascente no horizonte anunciava um dia morno, seus feixes de luz atravessando a neblina remanescente da cidade. Deitou novamente no ninho. Nada em volta. Nada envolta. Nada crítica. Nada. Nenhuma pertença. Nenhuma sentença.

sábado, 28 de maio de 2011

Tão Simples


Acordou assustada e sentiu gradativamente os sons chegarem aos ouvidos, e as formas e cores aos olhos. Virou-se de lado com o esforço de quem não tem forças sequer para imaginar. Viu no relógio do criado mudo: duas da madrugada.

Notou nesse momento que o sono que imagnara acontecido não fora mais do que horas insones. Os olhos cerrados. Encarcerada no desejo de que no momento seguinte a densidade da inconstância nublasse a paisagem da realidade.

Virou-se novamente e, buscando conforto para as costas apoiou o ante-braço na fronte. Vidrou os olhos, agora abertos, no teto até que arderam e lacrimejaram, findando a concentração.

Cada parte sua ansiava pelo embalo do sono. Não porque precisasse dormir. Não porque estivesse extremamente cansada. Mas porque precisava acordar. Ter um intervalo entre o que era atual e o que se seguiria.

A outra mão passeava os dedos no abdome. Massageava os músculos contraídos tentando dissolver os nódulos da apreensão. Respirou lentamente. Para dentro. Para fora. Exercício de relaxamento e suspiro controlado. Tremeu o peito.

Não havia estrelas no céu nem movimento nem ar. Engasgou sôfrega. Parou. Amassou o lençol dentro da mão quente e úmida e de um salto correu para a cozinha. Um chá... Acocorou-se no canto entre a geladeira e a porta. Segurando a xícara estalava as unhas forçando umas às outras. Não há ninguém por perto. Não há ninguém olhando. Mas sentiu uma vergonha alheia como se naquele momento estivesse sendo observada por si mesma do outro canto da cozinha.

Não veio. O sono não veio. Perambulou em volta da mesa sem completar qualquer pensamento e olhou para o computador. "Não". A geladeira. "Não". A rua. "Não, não". O computador. Entrou na rede forçando um bocejo. "Mentira". Não havia qualquer sinal de sono.

Instintivamente seus dedos digitaram o endereço, a senha. Percorreu novamente todas as mensagens trocadas guardadas em sua caixa de entrada. Releu cada palavra interpretando cada possível sentido oculto contido nelas. Trocas de mensagens coletivas. Mas ele escrevera seu nome algumas vezes. Trivialiddades apenas.

Os álbuns de fotos. Deteve-se na que melhor dava sentido ao momento insone. Mas ele não a via através do monitor. Não lhe sorria. A foto representava somente um estado de espírito passado. Ela não participara. Não causara o sorriso ou a situação. Não tirara a foto. "Porquê?" Revirou os olhos e riu da incoerência infantil desse pensamento. "Essa". "Essa não". "Essa está melhor". "Todas lindas". Mesmo as feias.

A almofada gasta do assento fez seu corpo reclamar a posição. Levou o laptop para a cama e deitou-se de bruços. Navegou, navegou. E diante de seus olhos ele lhe sorriu. Sim, era para ela dessa vez. E sentiu sua respiração tão próxima, tão quente. Seus braços enlaçaram sua cintura e os lábios dele espremeram os seus. "Sim". E por uma eternidade estavam juntos e por uma eternidade estariam. O sorriso da foto travado no rosto dele. A beleza imutável retratada na foto atravessou o tempo em que estiveram juntos naquela eternidade.

Acordou e esfregou os olhos. Não. Não havia nenhum corpo sob os lençóis senão o seu. Tateou. O laptop esta lá ao seu lado. Frio. A foto ainda lhe sorria. Bateria fraca. Ambas. "Bom dia..", respondeu para a foto. Tremulou os lábios na tentativa de conter um sorriso. Tímida. Entendeu.

Estava apaixonada.

sábado, 5 de março de 2011

Latência

Ela estava sentada sobre o para-peito da varanda, os olhos vagos observavam as crianças que brincavam do outro lado da calçada. Enrolava lenta e despretenciosamente a barra do vestido florido que ganhara de aniversário no ano anterior. Não sabia exatamente dizer se estava triste ou feliz. Só esperava... Esperava. Há muito esse era seu mundo: esperar.

Todo final de tarde, antes do sol esmaecer no horizonte, sentava-se no mesmo beiral e olhava o brincar dos meninos sem que houvesse algum motivo específico nessa atitude. Acabara de fazer vinte e oito anos. Ainda muitas perguntas... Muitas respostas incompletas. Os olhos distantes, as respiração que intercalava ansiedade e desânimo num movimento ora frenético, ora tão lento.

Havia algum tempo sua rotina se resumia em fazer as atividades domésticas e aguardar o cair da noite. Sem qualquer tipo de evento que modificasse o curso das cosias. Não havia urgência nem tranquilidade. Ou ambos... Em anulação. Decidira que o melhor movimento seria ficar parada, por mais que essa decisão trouxesse um desperdício evidente do tempo, que nunca parava para que tivesse tempo de decidir por qual caminho seguir.

Pousou a cabeça na mão esquerda, o braço sobre o joelho. Coçou o olhos com o polegar na tentativa de enxergar além do mundo que percebia ao seu redor. Nada. Pressionou os lábio fazendo uma linha reta mostrando as covinhas, agora mais fundas e menos atraentes. A linha ganhou um arco ao lembrar o quanto era elogiada pelas covinhas: “que covinhas lindas, essa menina tem! Nunca deixe de sorrir, minha querida. Você tem um sorriso que pode iluminar o mundo, se você quiser”, sempre dizia a avó quando vinha visitá-la... “Nem o mundo nem a mim mesma. Nem agora nem nunca”, surpreendeu-se pensando. E assustou-se.
Tempo também fazia que não lembra-se das conversas consigo mesma, sobre seu futuro ou seu passado. Não tinha consciência de alguma reflexão voluntária. Não havia registro. Franziu o cenho, os olhos buscando sem foco alguma lembrança. Nada. Abraçou as pernas ajeitando o vestido. Encostou o queixo nos joelhos e inclinou a cabeça. “Vou me esforçar para guardar as lembranças”, sorriu timida e rapidamente. Coçou a nuca. Ajeitou mais uma vez o vestido.

O moço que sempre passava naquele horáio despontou na esquina. E como habitualmente fazia, deu meia parada em frente ao portão e acenou gentilmente levantando o chapel... Ela virou-se. Meio marota, meio envergonhada. Desceu e, sem olhar para trás, fechou a porta. O moço seguiu seu caminho, os olhos baixos... Nada...

Fim de tarde

Passou a mão sobre a capa do vinil empoeirado e há muito guardado à espera do conserto do ´toca discos´. Já não possuía muitos mais. Mudanças e empréstimos fizeram a discoteca ficar reduzida a cinco ou seis, nem raros nem sem importância.

Sentou-se sobre o tapete de pele de ovelha furta cor, uma aquisição trazida de um desejo de infância, quando na casa da tia afundava deliciosamente os pés no tapete felpudo da sala. Uma escolha demorada apesar das poucas opções. Cada vinil tinha uma história diferente, falava de momentos distintos. Por fim escolheu.

Apanhou ovinho, uma das taças remanescentes do penúltimo casamento e recostou-se no sofá que ficava na direção da janela. O sol já dava seus sinais de cansaço, convertendo-se de amarelo escaldante para um alaranjado redondo de borda branca.Abriu o vinho e encheu a primeira taça do final da tarde.

O vinil na vitrola, o tapede ´da tia´ e a chegada do crepúsculo auferiram um tom nostálgico, bem embalado pelas músicas e pelos pensamentos, que naturalmente fizeram o caminho de volta no tempo, montando uma série histórica de acontecimentos a cada trecho de música, a cada agudo, a cada mudança de ritmo.

Pousou a cabeça na borda do sofa no qual havia colocado uma almofada e moveu os olhos na direção da tarde que já se ia. Foi entrando na paisagem, deixando para trás o corpo que levantava mais uma vez a garrafa para encher a taça com o vinho. Poderia ir a qualquer lugar naquele instante: espionar o atual objeto de desejo, visitar a mãe na cidade vizinha... Poderia, inclusive, transcender o tecido da realidade e visitar pessoas que já haviam partido deste plano.

O vinho tinto seco encorpado e de sabor forte foi, habilmente, manipulando os sentidos, entorpecendo os impulsos, relaxando a musculatura e trouxe a doce névoa do sono e do descanso.

Bons sonhos, menino...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Tá com medo de que?


- Você está com medo do que? Medo de falar que quer? Que ama?
- Eu não sei se amo.
- Ok. Medo de falar que gosta?
- Mas não é assim...
- Então como é? Você fica aí guardado a sete chaves esperando que a porta se abra sem qualquer movimento?
- Não. Não é bem assim. Acho que há momentos para tudo.
- Certo. E você ainda não decobriu qual o momento mais adequado para falar de sentimentos. Qual é esse momento?
- Quando eu estiver preparado.
- Entendo. E no momento em que você se sentir preparado, nesse momento você cai na armadilha da razão e diz que já passou e que, portanto, não faz mais sentido retomar o assunto. Sei.
- Não é nada disso. Você já imaginou estar interessado em alguém que claramente não está querendo você?
- Sim. Mas prefico falar. Falar e pagar para ver. Se houver reciprocidade, ok. Se não eu lambo o chão da calçada, choro, esbofeteio o ar. Chamo o filho da puta de babaca e volto pra vida. Ficar remoendo sentimento? Não tenho tempo para isso. Eu quero viver e quem faz minha felicidade sou eu.
- Parece fácil. Quem você ama hoje?
- Não amo hoje. Mas isso não quer dizer que nunca amei ou que nunca vou amar.
- Entendo. Assim fica mais fácil.
- Não estou dizendo que é fácil. Digo que nesse intervalo tenho tempo pra pensar nas coisas que já aprendi. Nas minhas vivências pra resolver o que é melhor pra mim.
Ainda assim é mais fácil. Mas não estou dizendo que não seja verdadeiro. Assim que você se apaixonar vai ou mudar de idéia ou lutar contra suas convicções. É sempre assim. Mas o mais interesante é que neste momento você tem a sensatez necessária para me colocar contrapontos que não tenho condições de identificar. Mas que quando você estiver de para-choque baixo, isso vai mudar. Isso vai.
- Pode ser. Não vou negar isso. Mas o que na verdade eu tenho interesse é em colocar para você que não há porque ter medo. Os amores vão. A paixão vai.
- O medo não é do ir e vir dos sentimentos. O medo é do que eles deixam ou do que eles trazem. Entre a chegada e a partida há um elo perdido. E durante, outro. Eu não tenho medo de amar. Ou sempe buscar, mas vejo a cautela em alguns momentos um reflexo de proteção importante.
- Claro, também acho importante. A questão é que se deixamos o reflexo de proteção nos guiar automaticamente as luzinhas vermelhas e amarelas se acendem primeiro. E o sinal verde fica distante e às vezes inatingível.
- Não vejo a distância do sinal verde como uma coisa ruim. Eu penso que é importante alguns machucados. Mas porque não evitar os buracos. Porque cair sempre de cabeça?
- Ah! você tocou em um ponto importante. Quantas vezes você caiu de cabeça nos seus relacionamentos?
- Todas.
- E porque há dificuldade em aceitar que é importante ser sempre assim? Já percebeu que entre o nascimento e a morte só há um jeito de estar aqui?
- Vivendo.
- Isso. E qual a qualidade do que vamos ter aqui? Pra que a contenção? Não estou dizendo que devemos ser desmedidos, mas repressão só traz rugas, meu caro amigo.
- Não vou me atirar de cabeça. Quero um espaço entre um passo e outro.
- Mas vai dar os passos? Estou vendo você parado.
- Meu tempo é diferente do seu.
- Que bom. É por isso que estamos tendo essa conversa agora. Já pensou tudo ajustadinho? Que perfeição. Inclusive não teríamos motivo para sequer conversar sobre a aflição dos sentimentos nem nada disso.
- Mas eu quero que entenda que o fato de não correr não significa que eu esteja parado. Seu tempo agora é o de correr e se estabacar se for o caso. O meu é de olhar pro buraco pra ver se desvio. E isso também não é uma coisa ruim. No meu processo eu preciso passar por isso. É importante pra mim.
- Quero que seja feliz. Fico preocupado com a sua racionalidade na hora de amar.
- Não estou sendo racional para amar. O amor já aconteceu. Estou ressignificando a minha forma de lidar com o amor. Não quero ser mais inconveniente, sem senso. Eu vejo duas coisas diferentes. Uma é o amor que você sente a outra é como abre o espaço para ele se instalar. Pode ser doloroso ou não. O que quero dizer, na verdade, é que sempre escolhi as formas mais gostosas pra ele se instalar mas sempre deixei fluir. Agora tenho mais vivências e, pra mim, é impossível deixar acontecer simplesmente. Apesar de estar ciente do que já está acontecendo.
- Eu já teria falado.
- Mas eu tenho as minhas reservas. Minhas caixinhas pretas também. Não saio fazendo o que você faz porque não tenho peito pra isso. Não sou assim. Tenho medo da recusa.
- A recusa faz parte. Assim como aceitação.
- Ok. não posso negar que quem está na chuva seja pra se molhar. Mas preciso pegar uma tempestade?
- Não. Não precisa. É que tudo pra mim é tórrido. Não gosto das coisas brandas.
- Eu gosto disso em você. Não duvide. Mas não sei ser igual. Eu sou ameno. Intenso, mas ameno. Somos diferentes.
- Eu te gosto muito.
- Eu também, meu amigo. Como é bom poder conversar com você. Me irritar com você e ao mesmo tempo te olhar com a docura que te olho agora.
- A gente deveria se namorar. Pelo menos já nos conhecemos. Talvez não fosse tão mais difícil assim. Você me puxaria para trás e eu te empurraria para frente.
- Já nos conhecemos. Isso teria pontos positivos e negativos. Não. Imagina só a partir de agora a gente se beijando, se esfregando. Não.
- Eu acho sua boca bonita. Não veria problemas em beijar você.
- E eu gosto do seu carinho. Nunca tive problemas de ficar abraçado com você.
- E aí?
- Heim?

quinta-feira, 25 de março de 2010

A Mudança - Parte 2

“´Miau, miau´... Como eu vou saber o que você quer, gato?” – resmungou Ana no dia seguinte, depois de uma noite de exaustão tentando demover o gato da insistente idéia de permanecer no sofá. “Como eu posso cuidar de você se nem consigo cuidar do resto?”. ´Miau´ - respondeu o gato. Um observador tenaz diria que o gato lhe dera a resposta em um único miado enquanto labia a pata dianteira e a passava na cara.
Trancou a porta no dia seguinte institiva e contraditoriamente para evitar a fuga do gato. “Alô!... Então, tem um gato lá em casa...” – inseriu o fato na conversa ao celular enquanto se dirigia ao ponto de ônibus. “Agora não sei o que fazer. O apartamento mal cabe a mim mesma...”. E nessa hora o tal observador tenaz poderia afirmar categoricamente que havia uma ponta de interesse de Ana na permanência do gato.

No trabalho a história era a mesma: o gato, o gato, o gato. Recebeu várias dicas dos amigos do departamento e acabou imaginando, afinal, que tê-lo em casa poderia ser algo diferente com o que lidar. “Não! Tá maluca! Ele vai encher de pelo suas roupas, vai miar pedindo comida e atenção” – dizia consciência consternada de Ana, enquanto a sua outra metade havia já se decidido a comprar um cesto onde o gato pudesse se aninhar, uma vez que ambas as Anas sabiam que no sofá ele não iria ficar. “De jeito nenhum”.

Comprou o cesto em um petshop e, dissuadida pela vendedora, comprou também uma bola de borracha que acendia luzes coloridas quando rolava pelo chão. Voltou para casa naquele dia disposta a doar o gato no dia seguinte. “Vai com cesto, bola e tudo” – disse incrédula para si mesma.

O gato a recebeu contorcendo-se em suas pernas, e querendo ou não confessar, Ana sentiu uma certa satisfação ao ser recebida por ´alguém´ em casa. Arrumou o cesto e colocou a bola para rolar, percebendo que ficara encantada ao ver o pequeno gato ronronar diante da bola e brincar com ela. De forma também inusitada o cesto fora acolhido como dormitóriopel gato, como se já estivesse esperando pela delicadeza desse gesto. E na mente de Ana a imagem dos dias seguintes contrastaram com a idéia quase contreta da doação imaginada mais cedo.

Amanheceu e o gato miava copiosamente um miado-choro irritante para qualquer pessoa. “O que foi? Já não disse que não sei fazer isso?”. O gato amaranhou-se em sua perna. Anna surpirou, jogou o cabelo para tras com as duas mão contornando a cabeça e ao abaixar para afagar desajeitadamente o gato percebeu que sua própria barriga roncara. “Fome. Nossa Senhora! O gato está sem comer desde ontem”. Correu e vestoiu qualquer coisa para ir ao merado mais próximo. “Comida para gato. Quanta variedade! Precisa ter tanta coisa assim?”. Voltou com uma lata indicada uma senhora que estava na mesma seção. ´Tem que ver o tamanho do gato´ - disse a senhora. ´Tudo depende do tamanho´. “Ok. Agora tenho que ver o tamanho do gato... Mas não tem jeito, vou levar a comida no chute, mesmo!” – pensou. “Uns 30 cm, eu acho...” – seguiu, passando as informações forjadas para a senhora que, compenetrada, escutava cada informação prestada. Voltou com duas latas. ´É uma por dia, menina. Não dê muito, senão ele passa mal... É macho ou fêmea?´. “Macho” – respondeu rapidamente, detestando a idéia de ter um gata em sua casa. Já ouvira muitas vezes que as fêmeas sofrem no cio, sendo quase rasgadas pelos macho na hora do acasalamento. “Ai, que horror”.
Curiosamente, houve uma boa adaptação entre Ana e o gato. Sim era macho. Desconfortada com a idéia de ter uma gata, Ana levou o bichano ao veterinário na semana seguinte. Vacinas, remédios, acessórios... “Uma grana, isso, heim!... Você tem que valer a pena, seu sem graça!” – disse, dessa vez sorrindo para o gato enquanto retirava a compra da sacola.

Mas nem tudo estava um mar de rosas. O gato achou o pé de sapato esquecido sob a cama e acabou com ele. Assim como desfiou boa parte de uma perna da calça jogada no chão. E considerando que a cada dia o gato trazia uma necessidade diferente. Que na verdadde não era uma necessidade dele, mas da própria Ana, gradativamente as coisas foram saindo do seu alcance.

“Agora eu tenho que arrumar as coisas porque o dondoco vai mexer em tudo, é?” E foi gradualmente organizando a bagunça espalhada pela casa. E na organização do espaço os defeitos foram aparecendo, assim com a também necessidade dos consertos. “Com é quenós chegamos até aqui mesmo?” – resmungava a cada troca, compra ou passada de vassoura. ‘Os gatos são muito limpos’, uma vez disse a senhora que agora passava a encontrar rotineiramente namesma seção do supermercado. Chegou a pensar que havia um certo tom de ironia na voz da velha, como se questionasse a sua limpeza. “ É. Eu sei, lembrando que fora obrigada pelo vendedor da petshop a comprar uma vasilha com uns grãos para que o gato fizesse suas necessidades ali.

´Ana, amanhã preciso que você mude-se para o terceiro andar. Estamos fazendo ulgumas mudanças e agora você vai para o grupo de endomarketing´ – foi comunicada, no corredor, pelo gerente como se a mudança se traduzisse em uma mera questão de geografia. Voltou para sua mesa inquieta pensando na sua trajetória naquela empresa. E se a menor distância entre dois pontos fosse realmente uma linha reta, já tinha chegado na outra ponta.

No dia seguinte retornou resoluta de que não tinha mais o que fazer por lá. Pediu demissão e voltou para casa com um sorriso escancarado no rosto como se acabara de fazer uma estrepolia de criança. “Oi Maurício. Voltei mais cedo hoje... Maurício!!!” – correu para a saia que comprara apoucas semanas.

Continua...

sábado, 13 de março de 2010

A Mudança

Um pé de seu par de sapatos estava jogado, tombado, atraz da porta. O outro sob a cama, encostado na parede após várias tentativas de limpeza, que terminara por empurralo cada vez mais para o fundo, aguardava o momento exato de ser limpo e juntar-se ao outro. A toalha azul desbotada dentro do cesto, junto às outras peças de roupa, dobrava-se sobre si mesma passiva há tempos esquecidos.

Uma camada ambar de poeira acumulava-se nos móveis dia após dia, num movimento lento e imperceptível, enquanto a torneira gotejava minuto a minuto o choro enferrujado vindo do cano sem manutenção. A luz do abajour queimada. A porta que rangia e esganiçava a a lateral na dobradiça a cada movimento.

O prato fundo sujo sopa ornava a pia como um enfeite velho que já não cabia no espaço. E o cabide colocado no puxador da porta do armário jazia inerte sem sua função de guardar e manter esticada a calça caída logo abaixo a dias.

Ela olhou em volta, sentou-se no meio da sala, ensaiou um suspiro lento e forçado de dentro dos pulmões. Arfou diante do desmazelo da casa, jogou a cabeça para tras olhando para o teto na esperança de ter o vislumbre de uma solução mágica. As mão apoiadas no chão, buscando o equilíbro do tronco. O alarme do celular tocou pontualmente, anunciando a hora inevitável do banho matinal. Seis horas. Puxou as pernas para sí em um movimento que as cruzou. Esboçou um arquejo do corpo estalando os ossos, que reclamavam a noite mal dormida e esticou os músculos encolhidos.

“Na hora” - pensou, levantando-se da posição de forma exageradamente lenta. “Está na hora”. Do jeito habitual de um ordinário dia de semana refez os passos já automatizados em direção ao banheiro. Abriu o chuveiro lembrando que tinha que chamar o bombeiro para ajeitar a carrapeta e tomou o banho.

Diante do espelho teve a costumeira conversa que iniciava o dia, planejando o que deveria fazer, enquanto escovava os dentes. Preparou o café da manhã olhando sorrateiramente o prato de sopa. “Na volta eu lavo”. E acumulou mais talheres na pia. Tomou o café e acendeu o primeiro cigarro do dia. “Depois desse só o do almoço” – advertiu-se. Passou pela calça no chão. “Esta está já está suja”. Jogou-a dentro do cesto cheio. Fez pressão e fechou estalando a trava da tampa.

“Onde está o outro?” – lembrou-se ao buscar novamente o par de sapatos. O tempo passava na lentidão do início do dia. Correu para o armário e escolheu a sandália marrom de salto baixo. O tempo passou. Corria mais rápido agora. “Porque não deixei tudo separado ontem?”. Pegou um vestido e habilmente o jogou sobre o corpo, deixando que ele deslizasse pelas poucas curvas que ainda permaneciam depois das esquecidas sessões de academia.

Olhou a bolsa e recordou que desde a chegada no dia anterior não havia tocado nela. “Então está dudo aí”. Pegou-a. Voltou ao banheiro tentando mante-la no ombro enquanto desajeita buscava o estojo de maquiagem dentro do armário. Passou um brilho nos lábios, o lápis no olho e saiu esquecendo a chave na porta.

“Está faltando alguma coisa”. Lembrou-se no elevador. Voltou sem a idéia exata do que buscava. “Meu Deus, a chave” - lembou-se. Correu pelo corredor como se tivesse pasado tempo suficiente para alguém te-la achado e entrado no apartamento desordenado. “Aquela bagunça toda!” – retaiu-se à idéia de que alguém pudesse ter entrado no apartamento de uma mulher e encontrado tanta coisa fora do lugar. Puxou a porta. “Doida, nem fechou a porta”. Trancou a porta. Pegou a chave aliviada.

O dia seguiu sem emoções. “Cada dia deveria ter uma emoção nova” - disse olhando o copo de café que se enchia na copa do sexto andar. Nenhuma novidade. Sentia-se estagnada no trabalho, como se não conseguisse utilizar mais de um por cento de seu cérebro. Sentada em frente ao computador, olhou a foto do sobrinho e sorriu. “Ele, sim, tem uma emoção nova a cada dia”. E retomou a sua rotina de trabalho.

O dia estava quente demais e sentiu-se aliviada de ter escolhido o vestido leve que estava usando. “Você não escolheu, sua louca. Ele estava à mão” – e soltou uma leve risada olhando imediatamente em volta para certificar-se de que ninguém a imaginava realmente uma louca naquele momento. Não. Estava sozinha naquele canto. “Gente! Acho que esqueceram de mim de pois de tanta mudanças nessa empresa”.

O dia passou como normalmente passava. “Tudo passa de qualquer jeito”. Olhou pela janela do respiradouro ao perceber algumas gotas de chuva grudadas no vidro e lembrou da última vez que, sem saber porque, permaneceu no trabalho até bem mais tarde para terminar um relatório e uma chuva inundou o bairro. “Ts-ts-ts. Dessa vez não!”. Enviou um último e-mail. Desligou o computador e apanhou a bolsa colocada no encosto da cadeira.

Foi novamente no sexto andar e tomou mais um copo de café acompanhado de um cigarro, lembrando que não hava fumado depois do almoço. “Boa menina. Tirando as condicionantes, heim!Isso vai sair da sua vida, garota. Ah! Vai!”.

Sua visão do dia anterior de chuva pareceu uma premonição e logo que chegou na portaria havia uma chuvisna e alguns raios no céu anunciavam chuva forte. Correu para o ponto de ônibus. “Deveria ter ido para o outro lado. Lá tem mais opções”.

O trânsito estava lento como sempre e parou justo quando a chuva prevista realmente caiu na cidade. “Ainda bem que não fiz escova”. Como se houvesse espaço sificiente o motorista parava em cada ponto pegando mais passageiros, que se amontoavam nos cantinhos e frestas entre um um e outro. “Otimo. Amassada. Empurrada. Encurralada”.

Com o humor abalado pela densidade demográfica do ônibus e pela lentidão do trânsito, chegou em casa duas horas mais tarde que o normal. Passou pela padaria olhando a vitrine dos pães imaginando como chegariam se resolvesse descer para comprar o lanche da noite. “Não!”.

Abriu a porta já tirando as sandálias para coloca-las ao lado do pé de sapato esquecido. Correu para o banheiro com a intenção de tirar o resto da roupa e tomar um banho para aquecer. “Hã?” – se perguntou, virando rapidamente para um monte de pelos que se aninhava no canto do sofá. Com se quisesse enxergar o vulto com nitidez, coçou os olhos esticando o pescoço e jogando a cabeça à frente enquanto cerrava os olhos na tentativa de entender o que acontecia ali. “Como assim, um gato?”.

Um gato, provavelmente, num desses momentos sui generis da vida de qualquer um, havia entrado pela porta entreaberta da manhã e acomodado-se sobre o sofá da sala. “Não gosto de gatos. Não gosto de animais de estimação! Não gosto de pelos” – quase bradou para si mesma. “Xô!... Xô!... Sai daí... Eu não gosto de gatos!” – gritou mentalmente enquanto agitava os braçso na tentativa de espulsar o gato, que permanecia enrolado e acabara de fechar os olhos depois do grito de Ana.

Continua...

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O Livro de Capa Vermelha

Ela estava pensando na vida em um restaurante, após uma sessão de cinema... Coisa que estava fazendo com com tanta frequencia naqueles dias, que estava constrangedor quando a chamavam para ver um filme e ela respondia: já vi...

O garçon passou por ela pela segunda vez para perguntar o que gostaria de comer ou beber, sem que conseguisse alcançar os pensamentos da moça, tão absorta que estava em seus devaneios.

"Garçon", por favor, o cardápio... Ao que o garçon indicou o que já havia colocado em sua mesa. Em um arfar sibiloso, ela abruiu e escolheu rapidamente... "E uma caipirinha de saquê, por favor". O agarçon assentiu enquanto anotava o pedido feito.

O restaurante ficava na cobertura daquele prédio de 19 andares. A vista privilegiada a noite, mostrava uma paisagem urbana reluzente de prédios e faróis. Olhou ao redor. Parecia que o restaurante estava completamente vazio. Talvez duas ou três mesas ocupadas.

"Alguma fruta de preferência, Senh...". "Kiwi, por favor". O garçcon afastou-se ligeiramente em direção ao balcão para fazer o pedido. Ela o acompanhou de soslaio, mas seus olhos se detiveram em um homem parado à porta, que observava o interior do do restaurante, como se estivesse buscando algum lugar confortável para sentar-se. Estava só.

O mesmo garçon que a atendera foi ao encontro do homem parado à porta. E após alguns segundos de conversa, o encaminhou a uma mesa reservada do outro lado do restaurante. uma mesa bem próxima à sacado do prédio, do lado de fora.

Ela se perguntou quem gostaria de ficar com uma mesa naquele local em uma noite tão fria. Mas logo percebeu que o homem estava trajado para vencer qualquer temperatura. Olhou atentamente. Termo e calça risca de giz. Camisa branca clássica. Gravata Skinny. Cardigã colorido. Sapato preto bico fino brilhante... Sobretudo preto.

Ao sentar-se o homem abriu habilmente todos os botoes se seu terno. e o sobretudo que já estava em sua mão repousou sobre o encosto da sua cadeira. El anunca tinha visto tanta destreza em etiqueta como esta vendo naquele momento.

"Senhora! O saquê, com gelo ou s...". "Sem, quero sem gelo". Fitou os olhos do garçon. No movimento do graçon, o homem olhou em sua direção. Involuntariamente, ela o olhou sobre o próprio nariz e mexeu levemente no cabelo. O homemcoçou a sombrancelha sem desviar seus olhos de sua direção... E chamou o garçon. Um pigarro veio em sua garganta e o pensamento de que talvez estivesse parecido leviana com aquele movimento... "Mas eu nem pensei em fazer aquilo, quando vi já tinha feito". Pensou quase em som alto. Quase em desespero.

Há algum tempo já não se via com qualquer atrativo. Seu casamento havia terminado há poucos meses e se olhar no espelho era um desgaste nos últimos dias. Assim como sua silhueta tudo a estava incomodando: a cor da casa, os móveis. Quando não estava no cimena, enfurnava-se no escritório ou debaixo das cobertas. Mais nos escritório que nas cobertas.
Pretendia a cada domingo dar um salto em direção a mudanças, mas ao acordar na segunda-feira a rotina de solidão a arrebatava novamente e prosseguia em seu ritmo desacelerado e sem perspectivas. Sabia que estava na hora de trocar a pele da vitimização, da auto-compaixão, mas o exercício era pesado naqueles momentos.

Assustou-se quando o garçon chegou com seu saquê, colocando levemente a mão sobreo colo. “Desculpe!”. Sorriu para o garçon, que deixava o copo sobre a mesa. Olhou detiamente sua bebida, enquanto lançava um olhar despretencioso em direção ao homem. Ele lia atenciosamente um livro de capa verlhelha e cintilante. “O que será que ele pediu?”. Em resposta, o garçcon passou com uma bandeja com uma garrafa de vinho e uma taça. O homem foi servido e degustou o vinho. Não aprovou. Delicadamente sussurrou algo ao garçon que apressadamente trouxe-lhe outra garrafa. Ao degustar mais uma vez, sorriu e assentiu com a cabeça. O graçon com semblante aliviado.

Percebia agora com mais detalhes o homem que chamava sua atenção. Provavelmente tinha 1,75 de altura. Branco. Cabelhos grilhalhos. Mas não aparentava mais que 40 anos. Corte moderno. Não era do tipo magro nem gordo... Nem do tipo que frequenta academias. Um tipo normal e charmoso.

Ele passou a mão nos cabelos, desarrumando um pouco o penteado. Afrouxou a gravata e desabou desleixadamente na cadeira... “Um charme!”. “Um homem clássico e despojado no final da noite”. “Um homem que tem mulher e filhos que o aguardam na sua casa arrumadinha e com uma vida perfeitinha”. Definiu o homem e sua vida e sem dar-se conta, soltou uma risadinha maliciosa. Talvez o efeito etílico do saquê e afrodisíaco do kiwi.

Seu prato chegou quase no mesmo momento que o pedido feito pelo belo homem que estava a poucos metros à sua frente. Curiosamente, ela levantou a cabeça para ver o que ele comeria, mas o desnível do piso em mármore Bochittino a impedia de ver com detalhes.

Lembrou-se de seu prato a sua frente: peito de pato defumado Gourmane com creme de tomate e coentro, batatas gaufrette e salada de endividas com Noz. Ela não tinha o hábito de comer comidas tão refinadas, mas junto com a depressão vinha a compusão por roupas e pratos caros. Vagarosamente, saboreou a comida que havia pedido, entrecortando o movimento dos talheres com olhares furtivos para o homem, que também jantava sozinho.

Um golpe de vento frio cortou o ar vindo da porta da sacada. Um jarro de plantas permanentes caiu próximo de sua mesa e o homem levantou os olhos em sua direção com ares de preocupação. Ao perceber o ocorrido levantou-se ligeiramente de sua mesa para dar-lhe atenção.

“Tudo bem. Obrigada”. “Não foi nada, mesmo”. Obrigada, obrigada”. O homem insistiu, perguntando se não havia algum vidro, pedindo que ela verificasse. Ela ficou de pé, um pouco constrangida e saciduiu a roupa com um sorriso consternado. “Viu? Estou sã e salva”. “Não se preocupe. Não aconteceu nada”. Não está frio lá fora?”. As palavras escapoliram de sua boca, que cerrou-se imediatamente apertando os lábios. “O vento está tão frio, e há tantas outras mesas...”. Emendou.

O homem sorriu e meneou a cabeça atendendo ao seu pedido. “Se importa que eu lhe faça companhia? De certo que já estamos quase terminando nosso jantar, m...”. “Claro! Qeuro dizer, não. Não me importo”. Com a classe que ela já esperava o homem solicitou ao garçon que o trocasse de mesa. E dirigiu-se a ela. “Sou Henrique...”. E seus olhos nos dela aguardavam que ela se apresentasse a ele... “Oh! Desculpe! Heloísa!”. “ Sente-se”.

Realmente não havia muito o que ainda comer de ambos os pratos. Conversaram pausadamente sobre amenidades. Ele tomando seu vinho, ela degustando mais do que lentamente seu saquê. “uma sobremesa? Por minha conta!”. “Não, obrigada! Realmente não tenho mais apetite para mais nada”. Nesse momento ela olhou para sua mão, que segurava o cardápio de sobremesas. Mãos fortes. Nem lisas nem com muitos pelos. Unhas bem cortadas. “Não tem aliança”. Quase Solfejou. “Nem marca de aliança”. Sorriu. “Acho que talvez algo com chocolate... Quem sabe...”. Manteve o sorriso congelado.

Ela falou um pouco sobre seu trabalho e descobriu que ele era do mesmo ramo, só que tinha atividades no exterior e estava expatriado há 5 anos. Estava no Brasil para um Seminário da Empresa. Terminaram e quando já não havia motivos para permanecerem no restaurante ele a perguntou se morava perto. Um frio percorreu-lhe a espinha. Passou a língua no canto superior dos labios, estreitando os olhos. “Mais uma vez, não”. Ela pensou desaprovando seu gesto incauculado. Ele sorriu. “Desculpe. Não quis parecer indelicado.” “Só queria acomanhá-la até a parte de fora. Você está sem casaco e a temperatura caiu bastante”. “Não... Nada”. “Pegarei um taxi aqui perto. Não se preocupe”. “Sou uma tola mesmo”. Prosseguiu em pensamento.
“Permite?”. Indagou cerimoniosamente o Henrique, estendendo-lhe o braço. “Obrigada!”. Agradeceu a gentileza que nunca tinha recebido, reribuindo com o seu braço contornando o dele. Piscou ligeiramente os olhos. “Vamos?”. Ela disse.

Seguiram lentamente pelo hall do restaurante e tomaram o elevador panorâmico, olhando as luzes da cidade que acendiam e apagagam num cintilar vibrante... Como aquele jantar inusitado. “Eu fico aqui”. Disse-lhe ele. “Eu seguirei um pouco a pé”. “Gosto do frio passando no meu rosto”. Minha casa é aqui perto”. Eu a acompanharia, mas tenho que estar de pé bem cedo. “Você não gost...”. “Obrigada pela Companhia.” Interrompeu ela. “ Foi muito agradável”. Ele sorriu timidamente, como se estivesse constrangido por ter sugeri algo não condizente com a Dama a sua frente. Apertaram as mãos.

Ele tomou o táxi e ela seguiu em frente. Alguns passos depois virou-se. O corpo completamente arrependido. Não viu mais o carro. Correu com os saltos altos em direção à esquina, mas somente as lanternas trazeiras e vermelhas do carro foram vistas ao longe. Lembrou-se rapidamente do livro de capa vermelha, que por algum motivo ficara em sua mão. Ergueu-o sem jeito na tentativa de chamar a atenção do táxi. Olhou para o livro e abriu-o em busca de alguma referência. Nada,.. Girou sobre os calcanhares hesitosa, ainda olhando o carro que diminuia com a distância. E retomou sua caminhada solitária em direção a sua casa.

domingo, 17 de maio de 2009

O Embaraço de Agusta

Augusta acordou de sobressalto novamente. Estava atrasada. Não que o sobressalto lhe fosse incomum, pois sempre o tinha – talvez como forma de sentir-se culpada por não conseguir despertar na hora devida todas as manhas.
- Ele vai me matar! – pensou, imaginando a cara de seu chefe quando soubesse de seu mais recente atraso.
Correu. Jogou-se no box do banheiro e deixou que a água necessária tirasse o marasmo de seu corpo, que ainda dormia.
- Marina! – gritou à filha ainda do banheiro – faz um café correndo pra mamãe, faz?!?!
Marina dormia e sequer ouviu o apelo desesperado da mãe viciada em cafeína, o que gerou mais uma daquelas costumeiras chamadas de atenção matinais sobre o quanto Marina dormia, era preguiçosa e só queria saber das amiguinhas do colégio.
Sem o café, saiu. Bateu a porta. Esqueceu os óculos e as chaves do apartamento. Voltou da portaria e tocou a campanhia. Marina levou mais um sabão pela demora em abrir a porta, o que não surtiu muito efeito pois voltou para cama sem ao menos dar-se conta de que havia saído dela.
Com o retorno para pegar as chaves perdeu a barca para a Praça XV e teria que ir de ônibus, pegando todo o engarrafamento da Avenida Brasil naquele horário. Não acreditava no que estava acontecendo.
O que acontecia na verdade é que Augusta era uma ratinha de salas de bate-papo. Não resistia a um clique na “rede dial up” após a meia noite para dar uma passadinha em seu cadastro no Par Perfeito e dali... Ah! Dali sempre viajava na larga envergadura das asas da internet... Em busca de um par perfeito, claro!
Naquela noite não foi diferente. Automaticamente, como um reloginho virtual, os dedos de Augusta digitaram seu código de acesso... E o mundo estava aos seus pés novamente. Ficou até quatro horas da madrugada clicando com uma figura de Porciúncula. Acabaram brigando, pois ela era Assistente Social, e do PMDB, e ele era um Economista filiado ao PT. Não ia dar certo.
O ponto de ônibus estava cheio e ela não tinha a menor idéia de quando nem como o ônibus iria passar. E ele passou no justo momento do pensamento. Seu corpo parecia querer apoiar-se em qualquer anteparo, buscando um motivo qualquer para descansar, que não fosse a noite de vigília em frente à tela sedutora do computador.
Conseguiu um lugar no fundo, caso o ônibus enchesse, já estaria perto da saída. Quando entrou notou um rapaz de seus vinte e seis anos, cabelo castanho bem penteado, cavanhaque, terno e pasta, muito bonito, com cara de simpático...
Sentou-se a sua frente. Inclinou a cabeça no encosto do banco e cochilou. Sentiu o ônibus sair mas não quis abrir os olhos ou mexer-se. Ficaria ali quietinha até chegar à Presidente Vargas.
- Oi... Olha, não precisa falar nada. Não quero te incomodar...
Augusta imaginou que estava sonhando e como ainda faltavam bons quilômetros a serem percorridos, deixou fluir.
- Quando você passou por mim, não deu pra resistir...
Não. Não era um sonho. A voz vinha do banco de traz. Mais especificamente do garotão simpático. Olhou de rabo de olho. Não tinha ninguém ao lado dele...
- Ele está me cantando na cara de pau – pensou quase em voz alta.
- Eu geralmente não faço isso... Mas se estiver incomodando...
Ela aconchegou-se mais para perto como se estivesse dormindo. Imóvel, parecia uma parabólica a capturar qualquer palavra que saísse daqueles lábios.
- Que soninho, heim? Acho que te acordei!
Augusta mexeu-se para que ele percebe-se que talvez ela estivesse acordada e escutando os galanteios.
- Você sabe que esse seu cabelo me deixa sem ar? Essa cor... Sei lá essa cor é o que há!
- “É o que há”. Puta que pariu. Um homem desses me dizendo que meu cabelo é o que há! – pensou. E automaticamente mexeu na franja que lhe caia sobre os olhos, destapando-os.
- Não sei não. Mas se você quiser a gente pode tomar um café hoje e...
Café. Um homem jovem que chamava para tomar café e não uma gelada. Um homem que ainda não havia chamado ela de gostosinha ou algo parecido. Um homem bonito. Dentro de um ônibus que ela não iria pegar! Agradeceu ao PT, à Marina, à barca que saiu britanicamente no horário... Agradeceu aos santos, orixás, aos mentores espirituais...
Era a sua vez. Tinha que demonstrar interesse senão o cara ia cansar da investida. Abriu lentamente os olhos abriu um livro de Direitos Humanos. Passou novamente a mão no cabelo, jogando-o para trás. Tirou as lentes escuras de seus óculos. Ajeitou-se no banco e, fingindo ler as linhas que estavam em seu campo de visão, ficou olhando pela janela com um meio sorriso esboçado no canto da boca. Na verdade tentava ver, pelo reflexo do vidro, o homem que a estava cantando.
- Você é linda sabia! – continuou o homem – acho que dei a sorte grande... Bom, ainda não sei. Você não fala nada...!
Decidiu. “Sem essa de bancar a mulher tímida”, pensou. “Eu, heim, só aparece homem virtual, com desejos, idades virtuais e...” – parou o encadeamento dos pensamentos.
Virou-se lentamente. Cabeça, tronco e olhos harmonizados. Ao terminar o movimento de rotação olhou direto nos olhos do rapaz... A situação a deixou ainda mais constrangida, envergonhada, quis morrer, saltar do ônibus ali mesmo. O sujeito, que apoiava sua cabeça no antebraço colocado no encosto do assento de Augusta, falava ao celular.
O homem percebeu a mudança dela e levantou os olhos. Soturnamente, com se quisesse manter a conversa em sigilo voltou o corpo para o encosto, abaixou a Voz e continuou a conversa.
Augusta nem havia notado seu retorno à posição inicial. Abaixou o livro como se retomasse a leitura, mas já não enxergava nada, tamanho o desapontamento.
- Então... Pensou que eu não ia ligar, não foi? – Continuou o rapaz.